8. ARTES E ESPETCULOS 18.9.13

1. CULTURA  A FARRA DOS LIVROS
2. CINEMA  PERDO IMPLCITO
3. LIVROS  PERSONAGEM SEMINAL
4. VEJA RECOMENDA
5. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
6. J.R. GUZZO  PODE E NO PODE

1. CULTURA  A FARRA DOS LIVROS
A multiplicao de feiras e festas literrias ajuda a formar leitores, movimenta o mercado e oferece aos escritores novas possibilidades de viver de seu ofcio. BRUNO MEIER

     Quando um amigo perguntou casualmente  professora Tnia Rsing como andava o curso de letras que ela coordenava na Universidade de Passo Fundo, no Rio Grande do Sul, ela extravasou insatisfaes que vinha represando havia muito. A conversa foi no incio dos anos 80, mas Tnia ainda lembra as palavras raivosas que usou para expressar a desiluso com o prprio trabalho: medonho, ridculo, sem inovao, uma mesmice. Na raiz dessa fria, estava uma constatao preocupante que, diz ela, permanece atual: "Professor no l. Alguns chegam a ter dois celulares, mas no compram livro". No esforo de estimular a leitura entre os que j deveriam cultiv-la, Tnia levou  reitoria da universidade uma ideia ambiciosa: convidar escritores brasileiros e estrangeiros a participar, em Passo Fundo, de um grande encontro, no qual falariam de suas obras ao pblico. O projeto pareceu, a princpio, invivel: a 250 quilmetros de Porto Alegre, Passo Fundo estava ausente do mapa cultural do Estado e do pas. Os escritores, no entanto, atenderam ao chamado. A primeira edio da Jornada Nacional de Literatura de Passo Fundo, em 1981, contou com a adeso do escritor Moacyr Scliar e do poeta Mrio Quintana. H duas semanas, Tnia subiu ao palco de um dos pavilhes da universidade para encerrar a 15 edio da jornada, que, realizada de dois em dois anos, se tornou uma referncia bem-sucedida de programa de incentivo  leitura. Hoje, Passo Fundo ostenta o orgulhoso ttulo de cidade mais leitora do Brasil. De acordo com a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, da Cmara Brasileira do Livro, cada habitante da cidade l, em mdia, 6,5 livros ao ano, perto do ndice francs, de sete livros por ano  e muito acima da mdia brasileira, de 1,3. O vergonhoso ndice nacional parece confirmar o clich segundo o qual o brasileiro no  amigo dos livros.  da natureza do clich ter seu fundo de verdade, mas tambm obscurecer o que realmente interessa: muitas vezes, falta apenas um pequeno empurro  ou algum que empurre, como Tnia Rsing  para despertar os leitores. As feiras, jornadas, festas, festivais de literatura que tm se multiplicado pelo pas podem representar essa diferena. E s vezes fornecem indicadores otimistas: a Bienal do Livro do Rio de Janeiro, surgida dois anos depois da jornada de Passo Fundo, comemorou em sua ltima edio, encerrada no dia 8, o nmero recorde de 3,5 milhes de exemplares vendidos, movimentando um total de 70 milhes de reais, 20 milhes a mais do que a edio de 2011. 
     Ao lado de sua irm mais velha, a Bienal de So Paulo, criada em 1970, a Bienal do Rio  a grande vitrine da indstria do livro no Brasil. Atraiu, nesta edio, 660.000 pessoas  para fins de comparao: o maior festival de msica do pas, o Rock in Rio, que est acontecendo nesta semana, espera um pblico de 600.000 , sobretudo jovens leitores entre 15 e 29 anos que faziam imensas filas para pegar autgrafo de autores pop como Paula Pimenta e Eduardo Spohr. A jornada  um acontecimento de natureza muito diversa: o centro das atividades no  o balco do vendedor, mas o palco onde os escritores falam. No existe, porm, nenhuma oposio entre a feira comercial e o acontecimento cultural: so fatos complementares, que, cada um a seu modo, fortalecem a indstria editorial e ajudam a aplainar o sinuoso caminho que vai do escritor ao leitor. O Brasil entrou de forma mais efetiva no circuito internacional dos eventos literrios em 2003, quando surgiu a Festa Literria Internacional de Paraty (Flip). Espcie de butique de escritores, a Flip j trouxe autores da moda, como o americano Jonathan Franzen, e nobelizados, como o turco Orhan Pamuk e o sulafricano J.M. Coetzee. E serviu de modelo e inspirao para vrias festas literrias que vm surgindo nas mais diversas localidades do pas, como a Flica, em Cachoeira, na Bahia, e a Fliporto, em Olinda, Pernambuco. No h um levantamento seguro do nmero de eventos literrios que, em suas vrias modalidades (veja o quadro abaixo), existem no pas. Um cadastro do Ministrio da Cultura registra 250, mas  seguro calcular que, incluindo-se feirinhas em cidades pequenas, o nmero no mnimo dobre. Criado em 2011, o Circuito Nacional de Feiras de Livro, programa do Ministrio da Cultura, tem um edital de 1,9 milho de reais destinado a financiar feiras e similares. A Lei Rouanet, entre 2011 e 2012, despejou 42 milhes de reais nessas promoes, por meio de renncia fiscal. A qualidade e os resultados desses projetos so desiguais, mas, de forma geral, o financiamento pblico se justifica. Muitos tornam o livro, ainda que por um curto perodo, mais acessvel aos moradores de cidades que no contam com livrarias (so 1600 em todo o pas). Em cidades de maior tradio letrada, as feiras do flego ao mercado livreiro regional. Tal  o caso notvel da Feira do Livro de Porto Alegre, uma das mais antigas  em novembro, ter sua 59 edio , cujos best-sellers frequentemente so autores quase desconhecidos no restante do pas. 
     Para os escritores, a profuso de festas e feiras representa um ganho duplo: para a vaidade e para o bolso. A literatura  a mais solitria das artes  mas, ao ser aplaudido pela multido em Passo Fundo ou ser abordado nas vielas de Paraty para dar um autgrafo, o escritor vive seu momento estelar. E a participao nesses eventos costuma ser remunerada. Os caches variam muito  de 1000 a 15.000 reais, dependendo do caixa do evento e da fama do autor convidado. Autores que se dispem a percorrer o circuito de feiras pas afora tm a um bom expediente para incrementar o rendimento, j que poucos conseguem se manter s com a vendagem de suas obras. "H autores que garantem boa parte de seu oramento com as feiras, ou at vivem delas", diz Valria Martins, jornalista que, h cinco anos, montou uma agncia especializada em levar escritores a esses eventos. As testas literrias que anseiam por apelo publicitrio disputam autores best-sellers (Laurentino Gomes, de, 1889,  hoje um dos mais solicitados) ou consagrados no jornalismo e na televiso. A ltima Jornada de Passo Fundo teve Walcyr Carrasco entre suas atraes. Clebre como empresrio da noite, Ricardo Amaral, graas  intermediaco de Valria, fez em 2012 uma bateria de eventos literrios no Nordeste  chegou a aparecer em oito deles, em apenas seis dias  para divulgar suas memrias, Ricardo Amaral Apresenta: Vaudeville. Tambm lanando um livro de memrias, Boni, ex-executivo da Globo e figura indissocivel da histria da televiso brasileira, debutou em um evento das letras no ano passado: dividiu o palco com Ricardo Amaral na Tarrafa Literria, em Santos. "Sou virgem em feiras, mas me agrada qualquer iniciativa ligada ao livro", disse ento. 
     A Tarrafa, cuja quinta edio se realiza na semana que vem, de quarta a domingo,  promovida pela livraria Realejo  o livreiro Jos Luiz Tahan, alis, teve a Flip como inspirao primeira. O amparo de um profissional da rea, com conhecimento e sensibilidade, pode fazer a diferena para o xito de uma festa ou feira. Nem todos contam com essa expertise. "Muitas cidades perderam o foco na organizao. Preferem colocar um parque de diverses no meio da feira a pensar no leitor", diz Snia Zanchetta, da feira de Porto Alegre, autora de um guia de como montar uma feira. Abundam, de fato, tentativas duvidosas de "popularizao". A Feira Pan-Amaznica do Livro, em Belm, existe h dezessete anos e pode se considerar consolidada: atraiu neste ano 40.000 pessoas por dia e movimentou 15 milhes de reais com a venda de 850.000 livros. Em edies passadas, porm, tentou atrair pblico tirando o livro de seu centro: os shows de bandas bregas como a Calypso  de fato trouxeram muitas pessoas  feira, mas poucas vinham comprar ou ler. Em Palmas, no ano passado, a primeira Feira Literria Internacional do Tocantins apresentava um cardpio variado mas desencontrado de atraes  de um show do padre-cantor Reginaldo Manzotti a uma apresentao do Bale Bolshoi de Joinville. Pouco conhecida, a escritora americana Tahereh Mafi ouviu do pblico perguntas ingnuas como " voc mesmo quem cria seu livro ou algum assopra a histria em seu ouvido?". A feira tambm enfrentou dificuldades para trazer autores. "Cansei de responder que Palmas no tem ona pelas ruas. S aparecem algumas raposas na praa", diz Danilo Souza, secretrio de Educao e Cultura de Tocantins. A edio deste ano acabou cancelada  a promessa  que a feira passe a ser bienal. 
     Dar incio a um evento do gnero  trabalhoso:  preciso garantir convidados, buscar financiamento, seduzir o pblico. No Rio de Janeiro, est-se tentando promover encontros literrios nas favelas ocupadas por Unidades de Polcia Pacificadora. Neste ano, a Festa Literria Internacional das UPPs (Flupp) pretende cobrir vinte favelas (a maior delas  Vigrio Geral, em novembro). O irlands John Banville, que veio ao Brasil para a Flip, tambm participou dessa iniciativa. Em 2012, a primeira Flupp, restrita ao Morro dos Prazeres, em Santa Tereza, contou com convidados de peso, como o maranhense Ferreira Gullar, talvez o melhor poeta brasileiro em atividade. Mas no chegou a mobilizar a populao da favela, e policiais foram convocados para ocupar as cadeiras vazias da plateia. A jornada de Passo Fundo tem um trabalho de base mais slido, realizado nas escolas da cidade gacha: os alunos lem as obras dos autores convidados. A Flip no tem esse envolvimento comunitrio, mas conta com o potencial turstico da cidade e da prpria festa. A maior parte do pblico vem de fora. 
     Em outubro, a Feira de Frankfurt, o maior acontecimento editorial do mundo, ter o Brasil como pas convidado. Setenta escritores brasileiros vo at l divulgar a literatura nacional, na esperana de interessar editores do mundo todo na traduo de suas obras. No prprio pas, porm, ainda est em curso o  trabalho de conquistar coraes e mentes para a leitura. Sobretudo para a leitura prazerosa mas exigente da literatura. "As pessoas querem narrativas. Gostam que a gente conte boas histrias", diz o escritor paulista Ignacio de Loyola Brando. Ele  um dos autores que vo a Frankfurt  e  tambm um dos mais rodados palestrantes de feiras e festas por todo o pas. No ano passado, Loyola esteve em 46 feiras, incluindo um evento no Amap, graas ao qual fechou a totalidade dos 26 estados brasileiros. Bom de palco, ele foi o mediador de todas as mesas na ltima Jornada de Literatura de Passo Fundo (o pblico feminino, generoso, gritava "lindo" quando ele subia ao palco). Nem todo romancista ou poeta ter a desenvoltura de Loyola para essas apresentaes pblicas. Mas a exibio dos escritores nessas vitrines pode, aos poucos, conquistar novos adeptos para o ntimo prazer da leitura. 

MERCADO DA LEITURA
Um cadastro do Ministrio da Cultura inclui 250 feiras e festivais literrios em todo o pas, mas  seguro afirmar que h pelo menos um nmero igual de eventos do gnero que, sediados em cidades pequenas, no fazem parte dessa lista. O circuito literrio brasileiro conta com basicamente trs modelos de evento. 

AS GRANDES FEIRAS
A primeira feira do livro do Brasil aconteceu em So Paulo, em 1951, emulando modelos europeus. Quatro anos depois, Porto Alegre inaugurava sua Feira do Livro. As feiras se multiplicaram, e hoje h dois gigantes no mercado: as bienais do livro, realizadas em So Paulo e no Rio de Janeiro, em anos alternados. Neste ano, a Bienal do Livra do Rio bateu o recorde de vendas em suas dezesseis edies: 3,5 milhes de exemplares. O Rio Grande do Sul  o estado com mais feiras de livros no Brasil: tem cadastrados 112 eventos. Realizada h dezessete anos, em Belm, a Feira Pan-Amaznica do Livro recebeu neste ano 400.000 pessoas e vendeu 850.000 livros 

AS FEIRINHAS
Realizadas em municpios pequenos e mdios, tm dificuldade em atrair escritores conhecidos e s vezes nem despertam o interesse de editoras e livrarias. Ainda assim, apresentam uma oferta razovel de livros para a populao de cidades que muitas vezes no contam sequer com livrarias. As regies Sul e Sudeste concentram a maior parte dessas pequenas feiras, mas h novidades tambm no restante do pas: pelo segundo ano, a paraense Paragominas, com 97.000 habitantes, organiza um Salo do Livro 

AS FESTAS LITERRIAS
Criada pela editora inglesa Liz Calder, em 2003, a Festa Literria Internacional de Paraty (Flip) tornou-se uma espcie de modelo para esses eventos. O centro no  a venda de livros, mas a celebrao do escritor  e, para isso, as festas dependem muito de nomes fortes, sobretudo de escritores internacionais. J h empresas especializadas na promoo desses festivais  como aquela montada pelo empresrio baiano Emmanuel Mirdad, que realiza a Festa Literria Internacional de Cachoeira (Flica), na Bahia, e planeja lanar, nos prximos anos, a Flisca, a primeira festa literria de Santa Catarina, e a Flican, em Canela, no Rio Grande do Sul.

CONTATO DIRETO COM O PBLICO
Quatro escritores falam da importncia das feiras e festas literrias para divulgar a leitura  e para garantir uma renda extra aos autores.

"Descobri j no fim dos anos 1970 a importncia de estar prximo ao leitor. Deixei de lado essa imagem do escritor inacessvel e fui fazer um trabalho com os professores e livreiros das cidades pequenas. Os escritores so vaidosos, mas perceberam que quem frequenta feiras literrias tem seu nome e obra multiplicados. Esses eventos so polos irradiadores." Ignacio de Loyola Brando

"Dcadas atrs, poucos escritores sobreviviam com a escrita. Precisavam ter um emprego, a maioria no servio pblico. Hoje, h uma gerao de escritores que podem viver do seu ofcio, graas ao que ganham em eventos literrios. Quando deixei a universidade, onde trabalhei por 24 anos, metade do meu oramento vinha de feiras, simpsios e eventos de livros que frequentei por todo o pas, de Rondnia ao Rio Grande do Sul." Cristvo Tezza 

"A literatura j foi vista como algo elitista. Hoje, ela ficou mais popular, e as feiras espalhadas pelo pas tm papel central nessa mudana.  legal ver a literatura se tornar pop, tal como o cinema. Na Bienal do Rio, 400 pessoas, com idade entre 16 e 35 anos, me prestigiaram.  um pblico muito fiel. Alguns fs me seguiram ao estacionamento. Autografei at no cap do carro." Eduardo Spohr 

"As feiras so muito importantes.  estimulante ver pessoas saindo de casa, interessadas na leitura e num contato mais prximo com o escritor. Eu participei das primeiras feiras do livro de Porto Alegre, e recebo muitos convites. Mas vou a poucas, por causa do meu pavor de viajar de avio." Ferreira Gullar 


2. CINEMA  PERDO IMPLCITO
Com jeito de produo barata, e tons politicamente corretos, Lovelace  um drama morno sobre a trajetria da primeira grande estrela dos porns americanos.

     No incio dos anos 70, o espectador americano foi contemplado com dois novos itens em seu cardpio: os telefilmes da semana  produes em longa-metragem feitas para a TV, e bem mais modestas que aquelas exibidas no cinema  e os filmes porns. Estes, claro, j existiam antes. Foi s naquela dcada, porm, que conseguiram sair da clandestinidade para estabelecer seu prprio circuito de exibio. A pornografia passou a ser um gnero, digamos, legtimo, assim como o suspense ou a fico cientfica. O responsvel por tal reviravolta de hbitos e costumes foi um filme de baixo oramento intitulado Garganta Profunda, estrelado por uma at ento desconhecida com o nome fantasia Linda Lovelace. Desde sexta-feira em cartaz, Lovelace (Estados Unidos, 2013) procura contar a histria dessa mulher alada  fama no vero americano de 1972  quando o filme estreou, atraindo at celebridades como a ex-primeira-dama Jacqueline Kennedy Onassis e o escritor Truman Capote  para depois ser jogada numa roda-viva de prostituio, drogas, violncia e arrependimento. O curioso  que o formato usado pela dupla de diretores Rob Epstein e Jeffrey Friedman lembra os canhestros telefilmes da semana: roteiro sentimental, visual modesto, atuaes plidas, mensagem moralista. 
     Linda Boreman (Amanda Seyfried)  uma jovem pudica e catlica que vive em Miami com os pais (Robert Patrick e Sharon Stone, irreconhecvel) quando conhece Chuck Traynor (Peter Sarsgaard), um tipo sedutor marginal que a apresenta ao mundo dos "filmes caseiros". J com seu nome artstico, ela estrela Garganta Profunda. O filme torna-se um sucesso estrondoso  a imagem de um programa de TV da poca mostra o veterano comediante Bob Hope dizendo que pensava se tratar de um documentrio sobre girafas. Linda se transforma na garota de quem todos querem arrancar um pedao, inclusive o dono da revista Playboy, Hugh Hefner (James Franco). Ao final, Lovelace acelera ainda mais a fugaz carreira ertica de Linda, passando rapidamente para sua redeno como dona de casa respeitvel e dedicada ativista contra a pornografia e a violncia domstica (omite-se que antes ela fez mais dois filmes e explorou a imagem de vedete explcita por alguns anos).  como se a atriz  morta em 2002, aos 53 anos  precisasse ser enquadrada nos atuais cnones do politicamente correto. O filme vale por um longo pedido de desculpas pstumo, verdadeiro anticlmax para quem  lembrada como um dos cones da revoluo sexual. 
MRIO MENDES


3. LIVROS  PERSONAGEM SEMINAL
Sai no Brasil uma biografia excitante do melhor amigo  e inimigo  do homem: o pnis. Seu autor mostra como o rgo sexual determinou a histria da civilizao.
MARCELO MARTHE

     Depois de muito perder o sono, o escritor americano F. Scott Fitzgerald marcou um almoo com o conterrneo Ernest Hemingway para tratar de uma dvida que o corroa. S no final do encontro, transcorrido na licenciosa Paris dos anos 1920, ele tomou coragem para confessar: o problema era uma "questo de medidas". O inseguro Fitzgerald ouvira da prpria mulher que seu, digamos, instrumento de trabalho no era l um Grande Gatsby. Hemingway acompanhou o colega at o banheiro do restaurante a fim de inspecionar seu "documento". Raposa desinteressada, deu-lhe um veredicto cnico: aquele tamanho era perfeitamente "normal". Para demonstrar que Fitzgerald estava em boa companhia, levou-o ainda para conferir as esttuas no Museu do Louvre  cujos dotes, a propsito, obedeciam  discrio exigida pela tradio clssica. Essa anedota do mundo literrio expe uma verdade universal: o pnis  tudo na vida do homem. Como lembra o ensasta ingls Tom Hickman em Um Rabisco de Deus (traduo de Frederico Simeone; Bssola: 224 pginas: 39,90 reais ou 24,90 na verso digital), o prprio Hemingway conheceria a ironia contida a. Impotente antes mesmo de chegar  meia-idade, ele tentou vrios mtodos para reanimar sua "velha Winchester modelo 12"  sem sucesso. H montes de histrias excitantes (em mais de um sentido) nesse livro que mapeia a trajetria do rgo sexual masculino e sua influncia desde o surgimento da espcie at hoje. Mas se extrai muito mais que curiosidades sexuais de sua leitura. Os homens, incluindo os gays, vo sair do volume compreendendo melhor suas fixaes atvicas em relao ao pnis. As mulheres, incluindo as feministas que denunciam a existncia de uma suposta "ditadura falocntrica", entendero por que  gostem ou no  esse mero apndice carnal conquistou um lugar elevado na civilizao. 
     "O pnis no  apenas parte do corpo: ele  determinante da identidade e do comportamento", diz o autor. Tem sido assim desde sempre: os humanos da pr-histria podiam ver num inocente crepsculo a imagem de um rgo masculino  o sol  se pondo dentro de um corpo feminino  representado pelo horizonte (o homem primitivo, pelo jeito, s pensava naquilo). A fascinao pag resistiu mesmo aps o advento do cristianismo. At o sculo V, lembra Hickman, as igrejas ainda ostentavam rplicas de pnis nos altares. Tal obsesso estaria presente at no smbolo mximo da religio: a cruz, alm de ser o instrumento da dolorosa morte de Jesus, lembraria um desenho pago que representava o pnis e os testculos. A figura de Jesus Cristo, alis, no estava imune  reverncia pelo atributo dos mortais. Desde o sculo VIII h registros do culto a uma certa relquia, o "santo prepcio", extrado na circunciso de Cristo. Na Idade Mdia, a Igreja proibiu representaes de Cristo com o pnis  mostra. Mas, aps a Renascena, artistas flamengos e holandeses ousaram retrat-lo com pelo menos a sugesto de uma ereo. E as antigas deidades flicas, de origem grega e latina, tiveram uma sobrevida entre os cristos at pelo menos o sculo XVIII. A forma engenhosa encontrada pela Igreja para ir acabando com isso foi transformar as divindades pags em santos. 
     O culto religioso ao pnis s sobrevive na ndia. Mas, na prtica, a humanidade continua sendo guiada por seus caprichos. No sculo XV, Leonardo da Vinci j percebia que o pnis "s vezes se move por conta prpria, sem permisso do dono". O grego Sfocles pontificava que possuir um era como estar "acorrentado a um louco". Verdade: no raro, o rgo ignora a razo e pe seu proprietrio em roubadas, da exposio a doenas  fria de mulheres magoadas. Em contraste, alguns parecem no se importar em abrir mo dos seus predicados. At o sculo XIX, milhares de chineses faziam de tudo para se tornar eunucos. Entregavam seu "tesouro precioso" em troca de uma vida confortvel de servial na Cidade Proibida. 
     Seria um sacrifcio impensvel para a maioria. Antecipando-se  mais sria de todas as angstias masculinas, Hickman abre o livro mostrando por que possuir um pnis no basta para a afirmao dos homens   preciso que ele cresa e aparea. Os generais romanos promoviam subordinados com base no tamanho de seus dotes. O presidente americano Lyndon Johnson se reunia com os assessores enquanto tomava banho, s para exibir seu poderio blico. Charles Chaplin orgulhava-se de carregar a "Oitava Maravilha do Mundo". Entre 193 espcies de primatas, nenhuma tem o pnis to grande quanto o do homem. Seu tamanho mdio, de 15,7 centmetros em ereo,  o dobro do de nosso parente mais prximo, o chimpanz. Os gorilas no vo alm de 3,7 centmetros. Vrias teorias evolutivas buscam explicar a razo dessa diferena. A mais provvel  que o pnis humano tenha funo semelhante  da cauda de um pavo.  um adorno com que os machos fazem autopromoo de sua virilidade e inibem os rivais. Hickman lembra que o gasto biolgico para a manuteno de uma estrutura assim  quatro vezes maior do que seria necessrio. Se esse esforo fosse canalizado para o aumento da massa cerebral, traria benefcios muito maiores. Mas convenhamos: quem precisa de um crebro avantajado se o sujeito que manda de fato mora abaixo da cintura?  


4. VEJA RECOMENDA
DISCO 
THE DEVIL PUT DINOSAURS HERE, ALICE IN CHAINS (EMI)
 O quarteto americano, um dos expoentes do movimento grunge, mostra com este disco que definitivamente superou a perda do letrista e vocalista Layne Staley, encontrado morto, em 2002, em seu apartamento  a autpsia revelou que a causa da morte foi uma overdose de speedball, mistura de herona e cocana. O Alice in Chains passou anos de luto at voltar  cena com o vocalista William DuVall. The Devil Put Dinosaurs Here  o segundo lbum do grupo depois da retomada das atividades. Embora as letras sorumbticas de Staley faam falta vez ou outra, o grupo no alterou suas caractersticas principais: canes com andamento vagaroso, que lembram os anos iniciais do Black Sabbath, uma parede de baixo e bateria to densa que pode ser cortada a faca, e a unio das vozes de DuVall e do guitarrista (e que guitarrista!) Jerry Cantrell. H uma preferncia por canes mais pesadas, como Lab Monkey. Em Stone, tem-se a impresso de que o baixo ameaa explodir as caixas de som. Mas o Alice in Chains casa o excesso de peso com msicas que at possuem um apelo pop, como  Voices e a balada Choke.

DVD
QUASE UM ANJO  BERNIE (BERNIE, ESTADOS UNIDOS, 2011. CALIFRNIA)
 Jack Black soma, em sua carreira, um nmero bem maior de interpretaes irritantes do que instigantes  mas esta aqui  das boas: no papel de Bernie Tiede, um agente funerrio afeminado, exuberante e muito querido em sua cidadezinha do Texas, ele casa uma inocncia genuna com algo bem mais sinistro. Bernie  solcito, alegre, canta no coro da igreja e  particularmente popular entre as velhinhas, que trata como rainhas e deixa lindas no caixo. Trata bem inclusive a Marjorie (Shirley MacLaine), uma viva rica que todos consideram um purgante. Aos poucos, Bernie torna-se indispensvel para ela. E ento os habitantes da cidade se do conta de que h tempos no vem Marjorie pessoalmente. Em seus depoimentos  cmera, admitem que, sim, suspeitavam de que o rapaz tivesse dado um sumio na viva; mas quem poderia culp-lo por isso? Os locais que falam  cmera no so atores, mas moradores reais da cidade de Carthage que, assim como o elenco profissional, brilham neste filme bem conduzido do diretor Richard Linklater, de Antes do Amanhecer, Antes do Pr-do-Sol e Antes da Meia-Noite.

O CINEMA DE OZU (JAPO; 1936-1993, VERSTIL)
 Menos conhecido do que seus contemporneos Kenji Mizoguchi e Akira Kurosawa, o diretor japons Yasujiro Ozu (1903-1963) comeou a ser mais exibido no Ocidente depois de sua morte. Dos anos 80 em diante, vem sendo cultuado por cineastas como o americano Paul Schrader e o alemo Wim Wenders, que o apontam como influncia fundamental. Esta edio  com trs discos  traz cinco obras-primas do mestre, mais um documentrio, Conversando com Ozu, produzido nos anos 90.  possvel observar a evoluo de um estilo a partir de Filho nico, de 1936  o primeiro filme sonoro do diretor, que narra a histria de uma me solteira que se sacrifica para que o filho possa estudar , at Crepsculo em Tquio, de 1957. H ainda o tocante Era uma Vez um Pai (1942), o alegre Tambm Fomos Felizes (1951) e o poderoso drama Era uma Vez em Tquio (1953), considerado o pice de sua obra. O enquadramento feito a partir do tatame  na altura da viso de algum sentado no cho, ou do olhar de uma criana  e a cmera parada observando a ao registram crnicas da vida da classe mdia. Delicadas como um origami e singelas como um crisntemo. 

LIVROS
A FILOSOFIA DA ADLTERA, DE LUIZ FELIPE POND (LEYA; 192 PGINAS; 39,90 REAIS)
 O subttulo anuncia o livro como uma coletnea de "ensaios selvagens". A selvageria, no melhor e mais provocador sentido, vem tanto do autor, o filsofo Luiz Felipe Ponde, professor da Faap e da PUC de So Paulo e colunista da Folha de S.Paulo, quanto do tema central da obra, as crnicas de Nelson Rodrigues. Mas talvez no seja exato falar no escritor pernambucano como tema do livro: este no , esclarece Ponde, um livro sobre Nelson Rodrigues, mas a partir de Nelson Rodrigues. As grandes intuies morais e existenciais do cronista servem para que Ponde depure sua prpria viso de mundo, marcada por um ceticismo irnico. A adltera, personagem trgica da obra de Nelson, surge como uma espcie de emblema da condio humana ou, em particular, da condio da mulher. O sexo, as diferenas entre homens e mulheres, a correo poltica so tratados por Ponde com verve digna do escritor que o inspirou. "O imortal hbito feminino  o hbito de ser objeto", diz uma das muitas passagens que vo enfurecer as feministas.

A CASA DO SILNCIO, DE ORHAN PAMUK (TRADUO DE EDUARDO BRANDO; COMPANHIA DAS LETRAS; 320 PGINAS; 49 REAIS, ou 34,50 REAIS NA VERSO
DIGITAL)
 Primeiro escritor turco a ganhar o Prmio Nobel de Literatura, em 2006, Orhan Pamuk frequentou as listas de mais vendidos do Brasil com Neve, romance caudaloso e belo no qual as vrias tenses polticas e religiosas de seu pas atravessam a trajetria de Ka, um literato sem pretenses polticas. A Casa do Silncio  um romance bem anterior, dos anos 80, que s agora ganha edio no Brasil. A histria transcorre em uma pequena vila de pescadores, durante um perodo conturbado, s vsperas de um golpe militar, e ainda em plena Guerra Fria. As conturbaes polticas, porm, parecem subterrneas: o centro do romance  o drama familiar de uma velha e desiludida viva que vive sob os cuidados de um empregado ano e que recebe os trs netos em sua casa para a temporada de vero. Cada captulo  narrado pela voz de um personagem diferente, em primeira pessoa  tcnica que permite a Pamuk demonstrar sua maestria como romancista. 


5. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
FICO
1. A Culpa  das Estrelas.  John Green. INTRNSECA
2. Inferno.  Dan Brown. ARQUEIRO 
3. Cidades de Papel. John Green. INTRNSECA 
4. O Silncio das Montanhas.  Khaled Hosseini. GLOBO 
5. O Lado Bom da Vida. Matthew Quick. INTRNSECA
6. O Teorema Katherine. John Green. INTRNSECA 
7. As Vantagens de Ser Invisvel. Stephen Chbosky. ROCCO
8. Cidade dos Ossos. Cassandra Clare. INTRNSECA 
9. Uma Longa Jornada. Nicholas Sparks. ARQUEIRO 
10.   Um Toque de Vermelho. Sylvia Day. PARALELA

NO FICO
1. Nada a Perder 2. Edir Macedo. PLANETA DO BRASIL
2. 1889. Laurentino Gomes. O GLOBO 
3. Sonho Grande.  Cristiane Correa. PRIMEIRA PESSOA 
4. Guia Politicamente Incorreto da Histria do Mundo. Lenadro Narloch. LEYA BRASIL 
5. O Mnimo que Voc Precisa Saber para No Ser um Idiota. Olavo de Carvalho. RECORD 
6. O Prncipe da Privataria. Palmrio Dria. GERAO EDITORIAL
7. A Graa da Coisa. Martha Medeiros. L&PM 
8. No faz Sentido  Por Trs das Cmeras. Felipe Neto. CASA DA PALAVRA
9. Carlos Wizard  Sonhos No Tm Limites. Igncio de Loyola Brando. GENTE
10. Getlio 1930-1945. Lira Neto. COMPANHIA DAS LETRAS

AUTOAJUDA E ESOTERISMO
1. Kairs.  Padre Marcelo Rossi. PRINCIPIUM
2. Eu No Consigo Emagrecer.  Pierre Dukan. BEST SELLER 
3. Casamento Blindado.  Renato e Cristiane Cardoso. THOMAS NELSON BRASIL
4. O Monge e o Executivo.  James Hunter. SEXTANTE 
5. Receitas Dukan. Pierre Dukan. BEST SELLER 
6. Louco por Viver. Roberto Shinyashiki. GENTE
7. Desperte o Milionrio que H em Voc. Carlos Wizard Martins. GENTE
8. S o Amor Consegue.  Zibia Gasparetto. VIDA & CONSCINCIA 
9. Seja a Pessoa Certa no Lugar Certo. Eduardo Ferraz. GENTE 
10. A Arte da Guerra. Sun Tzu. VRIAS EDITORAS.


6. J.R. GUZZO  PODE E NO PODE
     A poltica, como dizia Groucho Marx,  a atividade que se destina a procurar sem descanso algum problema, achar o problema, fazer o diagnstico errado para ele e receitar remdios que deixam as coisas ainda piores do que estavam. O comediante americano era realmente um craque em explicar para o ser humano comum o ridculo em estgio terminal de tantas questes que lhe so apresentadas como complicadssimas, e que s mentes superiores so autorizadas a tratar. Se estivesse vivo hoje, ele talvez dissesse "poltica internacional" em vez de apenas "poltica". No iria perder a oportunidade da piada diante dessa prodigiosa guerra da Sria, uma rixa de terceira categoria que se tornou uma das guerras civis mais cruis dos nossos dias  e pouco a pouco se viu transformada pelos estadistas que nos governam numa crise mundial, com tudo aquilo a que as crises mundiais tm direito. Um no problema se tornou um problemao, as explicaes a respeito de suas causas no explicam nada e todas as solues propostas para resolv-lo so ruins.  
     Como  possvel, para comear pelo comeo, que um lugar como a Sria possa se tornar o foco central de um conflito que ameaa o equilbrio do mundo inteiro? Com todo o respeito  Sria e aos srios, no faz sentido construir uma ameaa  paz mundial por causa de um pas que tem um territrio menor que o do Estado do Paran, populao talvez inferior  da Grande So Paulo e um PIB estimado entre 60 e 70 bilhes de dlares  quase quarenta vezes menor que o do Brasil e menos do que os 110 bilhes que a Petrobras faturou em 2012. No h nada ali, francamente, que valha grande coisa para o bem-estar da humanidade; se fosse posta  venda no mercado imobilirio, seria difcil encontrar comprador para suas reas de deserto, pedra e areia.  duro levar a srio, alm disso, a ideia de que esse modestssimo pedao do planeta possa ser uma ameaa  segurana dos Estados Unidos, como o governo americano sustenta no momento com grande paixo  o que exigiria uma interveno militar direta destinada a liquidar o atual governo da Sria e, assim, devolver a tranquilidade ao mundo. 
     No faz sentido. O governo da Sria, na vida real, s ameaa a segurana dos prprios srios; como sempre acontece com ditaduras primitivas,  contra eles que utiliza o seu arsenal. A comprovao disso  a brutal guerra civil que comeou junto com o caos criado em diversos pases muulmanos da regio, e que nestes dois ltimos anos j matou mais de 100.000 pessoas. Um ataque militar  Sria, por esse prisma, teria tambm a utilidade de interromper o massacre  um motivo de carter humanitrio, digamos. Mas, no caso, no h um lado mau e um lado bom; h apenas dois lados que querem se exterminar mutuamente. Derrubar o atual governo srio teria como nico efeito prtico garantir que a matana continuar a toda, s que agora sob a iniciativa dos rebeldes. E as armas qumicas  o mundo deveria assistir quieto ao governo exterminar seus inimigos com gases sarin, tabun, VX e outros horrores, como fez num ataque recente em que morreram mais de 1400 pessoas? Nos ltimos dias o foco central de tudo passou a ser uma insana discusso sobre a existncia ou no de provas sobre o uso de armamento qumico, e a abertura do arsenal da Sria para inspeo internacional. Algo assim: se no for comprovada a sua utilizao, poderia haver uma "sada diplomtica" para a crise. Ficaria combinado, para satisfao geral, que matar 100.000 pessoas a bala ou tiro de canho  aceitvel; o que no se pode aceitar  que o governo mate gente com compostos organofosforados capazes de fritar o sistema nervoso central do inimigo. 
     Argumenta-se, enfim, com a necessidade de golpear duro o terrorismo internacional, que a Sria protege, estimula e financia. No est claro o que os Estados Unidos conseguiram at agora, com sua ofensiva mundial antiterrorista destinada a vingar a destruio do WTC de Nova York, doze anos atrs. Ao longo desse tempo todo, conseguiram matar dois inimigos mortais  Saddam Hussein e Osama bin Laden. Em troca desses dois, 7000 soldados americanos j morreram nas aes contra o terrorismo, dois pases, Iraque e Afeganisto, foram invadidos militarmente e 2 trilhes de dlares, soma que a longo prazo pode dobrar ou triplicar, saram do Tesouro americano para pagar a conta. E no que deu isso tudo? Deu que  preciso comear uma guerra nova em folha, agora contra a Sria. 
 a soma do falso problema com a falsa soluo e o falso resultado. 


